Nos tempos do Rei!
- Ó Merlin porque você fez isso?- Isso o que minha senhora?- Não me venha com mentiras agora Merlin, você sabe muito bem do que eu estou falando.- Ora, ora! Você invadiu meu local de trabalho e ainda por cima está inventando estórias pra me caluniar. Você me procurou àquela noite, eu estava quieto e descansando até que você apareceu e começou a subir e me acariciar, sabe, apesar de mago nessas horas não há fórmulas secretas, eu também peco minha filha. Se não quisesse esse destino pensaria melhor antes de se entregar ao fogo das paixões.- E o senhor está me repreendendo, deveria ter impedido tudo antes, afinal a culpa não é só minha e vais ter de assumir a criança!Indignada ela virou as costas pra ele e permaneceu aonde estava, Merlin pouco se importou e voltou para os seus afazeres. A mulher ficou extremamente chateada e bateu a porta ao sair. Merlin riu secretamente e continuou a sua vidinha de poções mágicas.VÓING, VÓING, VÓING!!!!Uma grande torta, será que era a torta dos Beatles!?Sim, o mesmo homem que aparecera naquela noite no sonho de John estava de volta!!VÓING, VÓING, VÓING!!!!- MERLIN, MERLIN, NOS ACUDA!!!- Ora, não chateia guri!! Não vês que estou trabalhando nessa fórmula secreta para o nosso digníssimo rei Arthur?!- Agora não Merlin, nós estamos em perigo lá fora, uma besta está a nos atormentar.- Chega desse misticismo todo rapaz, volte para seu trabalho, não passa de um reles vassalo que estás a gritar como um cavaleiro. Fique quieto e trabalhe!O homem da torta continuou flutuando e assustando todos os colonos da Cornuália...continua...
On the countryroads...
James, assim era chamado carinhosamente por seus amigos, vivia em uma cidade sem internet. A comunicação era feita a base de telefonemas, cartas, bilhetes, gritos, essas coisas que antecederam a internet. Alguns trabalhos demoravam dias, meses, anos para serem concluídos, eles tampouco sabiam o que era MSN ou qualquer outro programa de mensagens instantâneas.Pessoas que vinham de fora não compreendiam como eles conseguiam viver sem internet, o que os forasteiros mal sabiam era que ele NUNCA tiveram contato com a grande rede! E isso os espantava mais ainda.James era um cara cabeça feita, não dava importância pra um monte de bobagens que as outras pessoas costumavam perder tempo. Ele era um cara muito contrário a certas práticas, era um cara de ganhar. Pensava sempre em alguma coisa legal pra ajudar os camaradas – leia-se: qualquer um que desse um sorriso sincero pra ele. Quando menino, James havia fugido da fazenda dos pais e até hoje diz não se arrepender do que fez, “foi a melhor coisa que fiz na minha vida”, diz ele. Lá, na fazenda, ele aprendeu essas coisas de vaqueiro, e sabia fazê-las melhor do que qualquer um. E montava como um campeão. Por isso ninguém compreendia porque ele havia abandonado uma vida tão bucólica junto às vacas, pasto, galinhas e vida campestre para ir para uma cidade que nem internet tinha! Ele sempre repetia:”era preciso novos ares”. Os velhos balançavam a cabeça, mas quem vai compreender um coração desbravador?Ele veio pra cidade no lombo de um cavalo manco que morreu assim que James tirou-lhe as rédeas. O pobre menino chorou durante uma semana a morte do companheiro de estrada, chamava o desgraçado animal de Louris, vá entender de onde veio esse estranho nome, porém James achava-o lindo! Ele ganhou o cavalo quando tinha apenas cinco anos, eles cresceram juntos, por isso o choro no final. Havia laços entre homem e animal.Agora a pé, James buscava um novo espaço naquela cidade, não foi nada complicado demais, já que ele era um cara muito simples (e o que isso tem a ver?). Ele era simples, ué!? No primeiro dia dormiu embaixo de toldos sujos da parte pobre do centro, ganhou alguns centavos que lhe foram lançados por mãos endinheiradas em busca de um perdão barato. No dia seguinte James ficou um tanto ofendido com a atitude dessas pessoas, jurou a si mesmo que jamais ganharia dinheiro sem o suor de seu rosto limpo.
Quando estiver de olhos fechados.
Correu o camarim e buscou as últimas roupas, era a última aparição. Correu de um lado pro outro, buscando, buscando, e procurando tudo e nada, um pedaço de roupa, um batom, uma coisa qualquer pra um prazer barato, biscoito, água. Correu, correu, não cansava jamais. Era a sua última aparição.
Lá fora, luzes fortes, luz alta do carro de trás, buzinando e pedindo passagem. O a insegurança e nervosismo o impediam de tomar qualquer atitude, parado seguindo a mesma direção, e o carro de trás enchendo o saco. Ligou o rádio, música sempre relaxa né?
My love
There's only you in my life
The only thing that's right
My first love
You're every breath that I take
You're every step I make
Fez um sorriso que dizia sim pra algum momento na vida. E começou a cantar junto também, aquela canção era boa, era um tempo bom, agora era só correria de lá pra cá. O carro de trás conseguiu a tão sonhada ultrapassagem, ele cedeu o lugar na fila e voltou pra sua mesa, consumiu mais alguns toddys de estrada, mais alguns salgados gordurosos. Depois de um tempo voltou a correr, e dessa vez a estrada estava vazia, vazia, que nem seu peito.
Ao anoitecer
Olhou diversas vezes para o relógio velho, tentava encontrar suas palavras no tempo, ou respostas pra tudo, olhou e olhou, quase se perde por completo. Movia-se à lembranças. E as mesmas o consumiam tanto.
Deitou-se solitariamente à meia noite e sorriu ao deparar-se com a noite estrelada de início de Dezembro. Sua alegria verdadeira sempre era revelada silenciosamente, aos poucos e fazia-se sentir intensamente a qualquer um que estivesse ao lado.
Noutros dias seguintes...
Correu no porta-malas, procurava algo pra se vestir, as roupas acabaram-se, esconderam-se, foram embora. Buscava, buscava, buscava nada dentro do carro, tudo nos quartos nos quais dormira mal. Sonhava mais.
Arrumou-se como quem está apressado pra viver um grande momento, mas sempre lhe vinha as palavras: "Cuidado com a ansiedade! Paciência".
- Foda-se paciência! (gritou)
Pisou o mais fundo que o carro permitia, e permitiu-se fechar os olhos, o dia findava-se no horizonte, a vida findava-se na solidão, findava-se também quem buscava sem razão, findou em algum lugar, lugar nenhum pode assim ser chamado, o carro continuava, e a canção também...
You'll be the only one, 'cause no one can deny this love I have inside
I'll give it all to you. My love, my endless love.
Pra minha pequena.
Há três anos atrás eu havia postado no meu antigo fotolog um texto em homenagem à Avenida Carlos Gomes, aqui de Porto Velho, uma inspiração num texto que compõe o livro do Marcelo Rubens Paiva, Feliz Ano Velho. Só que pelo fato de não ter salvo o texto em nenhum disquete ou cd perdi o que tinha feito. Vou tentar outra vez.
Sabe, existem outras avenidas no meu coração como favoritas, ou belas, ou qualquer coisa de especial, porém é na Carlos Gomes que estão lembranças de fatos e momentos, pensamentos dos mais simples aos mais loucos que passearam comigo por suas calçadas.
Lembrar de todas as manhãs em que ia pra escola tentando achar uma solução pros problemas antes deles existirem. Elaborando milhões de teorias sobre um zilhão de questões que eu não sabia que já haviam sido respondidas.
Carlos Gomes perde em tamanho pra muitas outras avenidas por aí na cidade, mas a sua graça e significado pra mim já são o bastante para torná-la especial. Toda a graça e beleza dela, seu jeitinho acanhado, esburacado e lento, os bares que fecham-se sempre com os mesmos clientes, suas lojas decadentes, suas histórias indecentes, suas mulheres, homens e seus nadas mais.
Já fiz o percurso todo a pé (grandes mierdas), o tesão reside todo aí, senti-la de perto e depois apreciá-la como uma colegial cheia de idéias. Eu acompanharia a todas. Passar Pela Carlos Gomes de carro é legalzinho dá pra curtir um vento no Domingo, se for dia de semana é bastante lento, ela é estreita demais. De qualquer forma é sempre bom visitá-la, ainda mais quando você é de fora.
O princípio dela é meio chatinho, mas logo vem a rodoviária cheia de idas e vindas, porém o final do percurso é recompensador, uma visão de um rio de loucuras e maravilhas. Curtir a visão do Madeira do mirante é coisa boa de mais, é um extra de uma avenidinha tão tesudinha no seu desenrolar.
É merecedora do nome que tem, Carlos Gomes, também é plural como Vinicius de Moraes, e é de músico também! É tão triste em alguns dias, noutros traz tanta alegria que nem cabe na gente, cheia de papo e direta quando quer, uma avenida tão gente pra mim que a respeito assim também. É tão pequena que às vezes parece ser uma estrada sem fim, estranho né!? Mas é.
Quando eu for eu vou levar as melhores coisas da Carlos Gomes, esse jeitinho besta dela de ser, são tantas outras coisas que ficam em segredos, guardadas num sorriso displicente.
São coisas apenas.
Segundona calma, calma. O centro nervoso tomou seu remedinho de Domingo e nem tá aí pros fatos. Acho que a Segunda-feira veio me acolher, tá todo mundo quietinho. Sabe, são em momentos de crises que aparecem coisas pra nos salvar, que coisas? Ah, são tantas.
Sorrow é bobagem.
Eu vejo as janelas e vejo um milhão de pessoas, e um milhão de jeitos, de sentidos e sensores. Então ninguém me vê, fico ali em silêncio só observando. Assisto a um milhão de programas diferentes, alguns querendo se encontrar e outros em busca da perdição.
Vi ontem um homem por volta do seus quarenta anos, pensava na vida e pensava baixinho, pensava só com o olhar. Parecia um filme que dá saudade, até eu chorei no quarto.
Vi a mulher desse homem, ela estava com um olhar parecido, e os dois estavam, de certa forma, arrependidos.
Vi jovens num quarto, eles brincavam e sorriam, parecia coisa boba, mas bobo são os mortos por aí. E de repente um beijo, ninguém viu, só eu.
Algumas coisa me ofendiam, mas por que perturbavam do que chocar. Um velho e uma velha conversavam e olhavam pro céu, estavam bem felizes naquela noite, acho que sabiam que dentro de pouco tempo eles morreriam, estavam, certamente, despedindo-se da vida que talvez tenha lhes dado o melhor gozo possível.
Uma mulher apontava uma arma, se trocasse as letras virava um verbo bom, mas ela pensava mesmo em se livrar de alguém, algo, dela mesma.
Vi todos com seus medos e desesperos, alegrias e surpresas, todos os sentimentos guardados, eu vi. Não só olhei como senti na pele tudo aquilo por que passavam. Foi tão sincero e intenso, e fiquei exausta.
Deixei todos com suas vidas, fui pra cama pensando em mim e pensando em ninguém. Choveu naquela noite e molhou o meu travesseiro.